Jack Bauer e Walter Benjamin – A atualidade de Vestígios (parte 2)

Dirigidos por Antonio Cadengue, os atores Carlos Lira, Marcelino Dias e Roberto Brandão mergulham no universo de dor, conflitos e pesadelos do espetáculo “Vestígios”. Com texto de Aimar Labaki, a peça será apresentada no Galpão Cine Horto de 16 a 18 de agosto, sexta e sábado às 21h, domingo às 19h. Os ingressos serão vendidos por R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia).

Confira a segunda parte da entrevista que Natália Barud, historiadora, mestranda em História pela UFMG e pesquisadora com amplo trabalho voltado para o teatro e a arte engajada, realizou com o diretor Antônio Cadengue.

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Barud – Como tem sido a recepção do público? Porque é falar de um passado próximo, em continuidade e ainda desconhecido pela grande maioria da população.

Tem sido muito boa, para a nossa surpresa, porque a recepção tem se dado muito por essa compreensão de que tem algo nessa sociedade que move uma grande sombra que ela não tem como desvendar. Tem algo de fascinante, quer se desvendar quer saber sobre ela. Algo que você não conhece, mas precisa domar com a clareza da razão. Há pessoas que acham um tema obsoleto, acham que não tem sentido falar disso. Em Recife tem pessoas que acham isso uma coisa muito chata de tratar. Eu acho que não é um tema agradável, mas eu tentei fazer o mais bonito possível, o cenário tem paredes espelhadas, o público é um pouco torturador, um pouco torturado, fazendo uma leitura.

Tem uma trilha muito excepcional realizada por um músico chamado  Eli-Eri Moura, em que ele construiu algo muito preciso. Há cenas que se escuta um pingo d’água, uma goteira, um grito longínquo, a peça tem muitas camadas. Há uma cena, por exemplo, em que os torturadores dão uma pausa na tortura para tomar água, quase como se fosse para se purificar. Você vai viajando. Então, não é uma invencionice, parte-se sempre de um contexto, dando uma parte simbólica a esse processo que a gente vai criando.

Barud –  E com relação ao período que se passa os anos 90. A peça é um pouco atemporal?

A peça foi escrita nos anos 90. Foi escrita nessa época, você percebe que é Brasil, a garota cuja cabeça foi encontrada com o rapaz havia descoberto documentos, mas ele não sabe direito, pois essa menina desapareceu há 10 anos. Então é como se fosse um eterno pesadelo, como se fosse um eterno retorno, vai e volta. Então, é tão de hoje como de ontem.

Eu não quero que meu irmão, meu vizinho, meu compatriota, seja de que naipe for a sua coloração política, passe por uma situação como essa.

Barud – Como o público é confrontado com essa memória, a memória da Ditadura?

É confrontado, sobretudo, com a ideia da tortura. E a tortura é um crime imprescritível.

Não se trata de um regime de direita ou de esquerda. Trata-se de fazer alguém passar pela dor e pelo sofrimento sendo uma determinação do Estado. Quem tortura, não importa o nome, de esquerda ou de direita, precisa ser, no mínimo, denunciado e impedido de exercer cargos públicos. Quer dizer, aquele que foi torturador. Que usufrui de aposentadoria oficial, ou, ainda mais grave, dá o péssimo exemplo para as gerações seguintes. O ideal é que seja punido.

Recentemente, esse ano, teve uma grande discussão na Folha de S. Paulo onde Contardo Calligaris, Vladimir Safatle e Marcelo Coelho discutiram a questão da tortura. Sobre os procedimentos do Capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite’, ou do Jack Bauer em “24 horas”, se convinha ou não torturar em nome de algo. É um tema ainda muito forte. Mas, para o bem  ou para o mal, eu sou contra. E a peça, nesse sentdo, tem um caráter de  denúncia. Sem ser panfletária. Eu não quero que meu irmão, meu vizinho, meu compatriota, seja de que naipe for a sua coloração política, passe por uma situação como essa. Porque  uma  sociedade que vive de exercer o poder absoluto não sustenta e vai radicalmente contra  o que há na democracia. Um direito individual e coletivo.

É uma peça sobre tortura? É. Mas é uma peça sobre memória, sobre política, sobre corpo, sobre símbolos…sobre tantas outras coisas que vão dialogando dentro dela.

Barud – O Instituto Helena Greco distribuiu uma carta aberta falando da Comissão da Verdade. Eles não admitem que uma comissão da verdade sem justiça. Essa idéia de parar só na verdade não resolve, é preciso punir. Você acha que a peça acaba demonstrando um pouco a necessidade de uma punição?

Isso cada um vai pensar. Bom, a comissão não tem um caráter punitivo por lei, por objeto de lei. Tem algo que a antecede, a anistia ampla, geral e irrestrita, enfim…Mas lógco que tudo tem que ser repensado! A própria Argentina fez isso, o Uruguai e boa parte da América Latina. Tudo é uma luta, uma luta ranhida, como diria Gonçalves Dias. Você tem que, a cada dia, dar um paço a frente. A Comissão da Verdade não é punitiva agora, mas pode ser amanhã. É importante que ela exista. Quem a questiona é importante também. Essas várias forças confluem para o bem estar da sociedade, do cidadão. Refletem só as boas intenções das pessoas de bem, que estão interessadas na melhoria de um país pungente.

Barud – E de bem com o passado…

Sim, porque não se trata apenas de esquecer, porque esse é um outro conceito complicado, muito dito na teoria psicanalítica…

Não se trata de jogar pra fora. É reencontrar-se nesses vestígios, desse período doloroso que passamos, e tentar viver isso de uma maneira desapaixonada, mas cheia de comoção.

Barud – Vocês trabalharam com alguma coisa do Paul Ricoeur?

Não não, mas eu li. Eu gosto muito da história e da memória, do Le Goff, eu fuço muito as áreas (risos). Por mero deleite intelectual e porque tudo é material de trabalho pra mim. Eu sou um artista, tenho que estar antenado e tudo deve reverberar na arte.

Eu pensava, no início, muito na idéia do Walter Benjamin. Nas teses sobre a história. Quando a gente divisa os despojos dos vencidos. O que Aimar faz na peça, que acho que ela leva ao espectador, é essa capacidade de aceitação, dentro de si próprio, do passado de seu país. Não se trata de jogar pra fora. É reencontrar-se nesses vestígios, desse período doloroso que passamos, e tentar viver isso de uma maneira desapaixonada, mas cheia de comoção. Tem de ter essas contradições, sabe? Ter uma alta voltagem.

A pergunta que eu me fazia era: como a encenação dialoga com o texto? Como ela se torna uma dobra do texto? Em que condições encenantes a gente poderia fazer essa montagem para dizer isso? O espetáculo tenta flexionar o texto pelas forças inerentes da teatralidade. É isso que faz sair do eco ao estético, e do estético ao político. Pelo caminho da teatralidade. É nessa camada que se valoriza o desejo como elemento determinante dessa nova configuração. Quando digo que a gente tem que in-quecer, quer dizer, não é esquecer, botar pra fora, mas colocar pra dentro. Se a gente não encara isso, essas verdades vêem depois que elas são abafadas, elas vem de uma maneira muito mais violenta. Isso se torna perigoso ao esquecer.

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Foto: Américo Nunes

Barud – A gente pode pensar na ascensão dos movimentos neo-nazistas

Exatamente! Eu acho que a gente tem que in-quecer. É uma palavra que o Renato Mezan, um psicanalista paulista, usa.  Que seria diferente do esquecer, botar pra fora. O in-quecer é colocar pra dentro. Não se pode escamotear essas sobras sociais individuais e coletivas. A gente tem que encará-las. Não se trata de catarse, mas de uma compreensão do que foi vivido. Uma compreensão desapaixonada, mas implicando em uma certa comoção. Temos que compreender.

Barud – É interessante essa reflexão porque normalmente a gente percebe, hoje, relatos pouco reflexivos e muito apaixonados, que tomam menos pela reflexão e mais pela força simbólica, estética. É interessante pensar uma peça que tenta trabalhar nessa vertente, mas tem como uma idéia básica a compreensão. Quase sempre a vertente é a da comoção…comover o público através da tortura. E parece que não é esse o caso.

Não. Não é uma peça de tese, é uma obra de arte, uma peça de teatro, com um tema específico, uma força expressiva. É o meu jeito de fazer. Eu gosto da beleza, mas tem que ter um pensamento.

Barud –  E como é que foi o processo com os atores? Porque a temática é difícil.

Olha, a gente leu muito, discutimos, e fomos criando algumas improvisações. Mas nada do outro mundo. Porque são situações tão duras que era melhor experimentar por meio dos personagens. Então nós fomos trabalhando a partir do texto mesmo, sobretudo. Lendo sobre todas as torturas que são descritas. Pesquisamos, ou vimos, vários livros e ilustrações.

Barud – Deve ser duro, para o público, pensar que isso tudo são práticas cotidianas. Acho que ele também vê, quando pensa no caso do Amarildo, por exemplo, quantos métodos, formas, não modificam. É interessante pensar como modificou-se a repercussão. Eu acho que o que nos anima é que hoje é possível denunciar, que essas coisas conseguem ir para as redes sociais…

Não tem como a gente dizer que não vivemos em uma democracia. Uma democracia há de ser permanentemente refeita, repensada, recriada, e somos nós que temos que estar lá. Então, esses movimentos todos que têm surgido, eu acho que tem sido muito bacanas. As pessoas estão dizendo que não querem mais esses métodos arcaizantes de fazer política. Que talvez esses partidos não nos representem exatamente como gostaríamos de ser representados. Talvez até nem quiséssemos ser. Mas lógico que o Estado vai sempre implicar em partidos políticos, etc, etc…mas é interessante que haja uma negação disso.

As pessoas estão reagindo. E isso é um ato de cidadania impensável. Pela primeira vez a classe média virou “povo”. Independente de Marilena Chauí achar que classe média é sempre conservadora. Não é bem assim não. Os grandes movimentos artísticos no Brasil foram feitos pela classe média: o Cinema Novo, o Oficina, o Arena…o neo-concretismo. A história da arte no Brasil foi feita fundamentalmente pela classe média, contou até com o apoio das elites econômicas. Como o Cinema Novo, que podia fazer filmes como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e ser financiado pelos grandes bancos, tratava do latifúndio, ou “Vidas Secas”, do Nelson Pereira. Boa parte do cinema novo foi todo financiado. Até que vem o golpe ou, mais precisamente, o AI-5, e cai a ficha.  Aí teve o “Terra em Transe”, que já tem toda uma discussão nessas colocações. Tem uma crítica interna dentro desse processo. Aí você pensa, “São Paulo Sociedade Anônima”, “Os Herdeiros”, do Cacá Diegues, uma série de filmes que vão colocar isso em cheque. O caso exemplar disso, pra mim, é o “ Terra em Transe”, um filme que nós passamos para discutir a peça. Eu gosto de cruzar as informações. Outro filme que a gente discutiu foi o “Saló”, do Pasolini, outro foi “A História Oficial”, um filme argentino.

Eu queria que a gente pensasse assim, quando essa peça nem existia, e existia o “Terra em Transe” que, embora nem fale de tortura, trata do nosso país. Das contradições dele. Parte dessas contradições, nós vamos viver agora aqui nessa peça. Eu gosto de fazer esses links, puxar outros caminhos. Na vizinha Argentina também estava acontecendo isso, veja “A História Oficial”. Então a gente vai lá. Lá na Itália, na Segunda Guerra, teve essa situação, e o Pasolini, artista, se baseou no Marquês de Sade! Pré-Revolução Francesa! São coisas bacanas de você ter cruzando. Eu gosto de municiar os atores de informações. para que eles possam criar partido do que vêem: gestos, atitudes, movimentos, pensamentos, e aí, de repente, explode uma coisa em cena,que você nem tinha imaginado, nem eles, mas que é o resultado de tudo que foi lido, visto e discutido.

O que nós queremos fazer aqui é colocar em pauta esse exercício da cidadania. Por meio da peça fazer com que as pessoas tomem consciência, que elas possam pensar que isso poderia acontecer com elas.

Barud – Só pra gente encerrar, por que o público mineiro tem que assistir Vestígios?

Olha, Belo Horizonte é uma grande cidade, como qualquer outra grande cidade brasileira, com seus problemas, seus ônus e bônus. Não é?  E que todo mundo está reclamando. Isso é bacana!

O que nós queremos fazer aqui é colocar em pauta esse exercício da cidadania. Por meio da peça fazer com que as pessoas tomem consciência, que elas possam pensar que isso poderia acontecer com elas. É um pouco isso. Pensar que isso poderia acontecer com a gente, no dia a dia. Encontrar-se consigo mesmo. Aqui o espectador tem que elaborar uma cena, reconstruir uma cena. O espectador emancipado.


Natália Barud

Mestranda em História pela UFMG. Tem como foco de suas pesquisas as relações entre cultura e política no período da Ditadura Militar. Trabalhou com o Grupo Galpão no CPMT prestando assessoria em pesquisas sobre o teatro mineiro e nacional. Atualmente é pesquisadora do Portal de Primeiro Sinal e membro no Núcleo de História Oral da UFMG.


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