De 1964 a Amarildo – A atualidade de Vestígios (parte 1)

O que você sabe sobre tortura? Que tipos de torturas você conhece?

Pautado em uma temática forte, Vestígios faz-se essencial em um Brasil que tenta expurgar os fantasmas de um passado que insiste em lhe assombrar. Dirigidos por Antonio Cadengue, os atores Carlos Lira, Marcelino Dias e Roberto Brandão mergulham no universo de dor, conflitos e pesadelos do espetáculo. Com texto de Aimar Labaki, a peça será apresentada no Galpão Cine Horto de 16 a 18 de agosto, sexta e sábado às 21h, domingo às 19h. Os ingressos serão vendidos por R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia).

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Vestígios une um texto forte a um trabalho ousado de interpretação, por trás de passagens marcadas por violência física e psicológica. No enredo, apenas três personagens: dois policiais, na função de investigadores e torturadores, vividos por Carlos Lira e Marcelino Dias; e um professor universitário de história – o torturado, interpretado por Roberto Brandão, que se vê numa situação inesperada e angustiante após acordar ao lado da cabeça decepada de uma mulher.

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Foto: Américo Nunes

Toda a peça é permeada por um clima de suspense, a partir de uma narrativa clara e questionadora que traz, ao final, revelações impactantes. Vestígios  cumpriu temporada (24 apresentações) ano passado em Recife no Teatro Barreto Junior, com ótima aceitação do público e da crítica.

Para conhecer um pouco melhor o espetáculo, a Variável 5  convidou Natália Barud, historiadora, mestranda em História pela UFMG e pesquisadora com amplo trabalho voltado para o teatro e a arte engajada para bater um papo com o diretor Antônio Cadengue. Na entrevista eles conversam um pouco sobre a trajetória de Cadengue e também sobre a atualidade de Vestígios. Confira, a seguir, a primeira parte da entrevista:

Barud –  Ao pesquisar sua trajetória fiquei curiosa para saber o porquê de retratar esse período da história do Brasil, principalmente considerando sua trajetória de montagens mais clássicas.

Cadengue – A primeira lembrança que tenho de algo muito mais explícito, puxando esse fio do passado da minha trajetória, foi na montagem da “A Lira dos 20 anos” de Paulo Cesar Coutinho, em 1991.

Uma peça que traz a ideia do medo, a ideia da casa e da rua – algo que gosto muito, pessoas que descobrem que o mundo não é só a sua sala de jantar. Havia certo incomodo das pessoas, até mesmo a imprensa não sabia como refazer aquele diálogo. Me formei em psicologia e todo o meu conhecimento teatral veio por meio da leitura, eu nem pensava em fazer teatro. Eu acho que eu sempre fiz esse teatro político. Acho que eu nunca curti algo mais explicito. Não simplesmente incomodar, mas fazer refletir e refletir através da beleza, mesmo que a beleza esteja envolta em certo terror. É preciso que se tenha um jogo que prevaleça o humano, a condição humana, a sua miséria. Em Vestígios tem-se uma situação assim. Eu estava lendo a Folha de São Paulo e há um dado que diz que desaparecem cerca de 29 pessoas por mês no país. É isso essas pessoas somem. O Amarildo agora. Se fosse tratar isso de uma forma de ato jornal talvez não tivesse a mesma contundência se você fosse por um viés estético mais rigoroso.

“Acontecem, cotidianamente, torturas, desaparecimentos, onde as pessoas são levadas a exasperação, porque detém algum tipo de conhecimento ou não detém e o Estado supõe que você o detenha.”

Barud – Te surpreende positivamente a repercussão do desaparecimento do Amarildo?

Cadengue – Sim, muito. Porque eu acho que é a cara da peça. É tão impressionante, porque foi escrita no início dos anos 90, essas notícias estão sendo todas veiculadas e um pouco antes de estrear havia sido instituída a Comissão da Verdade. Gosto muito da ideia de que se passa no Brasil, não é um lugar especial, é nesse país. Acontecem, cotidianamente, torturas, desaparecimentos, onde as pessoas são levadas a exasperação, porque detém algum tipo de conhecimento ou não detém e o Estado supõe que você o detenha. O Estado quer que você dê nomes, que você dedure e as pessoas acabam mentindo na vida, nos inquéritos, se contradiz pois já não sabem mais o limite entre a verdade ou mentira. É uma peça compacta, tem 50 minutos, essa coisa da repetição, tem que ficar muito atento. Temos que usar os métodos das contradições para reler o país. É inevitável, não podemos ser inocentes diante de nossa realidade, diante das diversas violências e perversidades, violência contra mulher, urbana, contra negros, contra gays, de vizinhos contra vizinhos. As pequenas perversidades que são tão cotidianas que as pessoas não se dão conta.

A questão do desejo também é muito presente. A Maria Rita Kehl disse algo muito interessante na Folha que é o seguinte “Certamente altas patentes sabem que essa comissão não tem caráter punitivo. Então porque a mera divulgação incomoda tanto? Há hipóteses. A otimista seria a de que tem vergonha do que fizeram, mas a pessimista, ou realista, seria que de existe um gozo na teoria psicanalítica que é o gozo proibido, tão sem freios que no limite é mortífero”. A peça trata desses sentimentos.

As pequenas perversidades que são tão cotidianas que as pessoas não se dão conta.

(Continua…)


Natália Barud

Mestranda em História pela UFMG. Tem como foco de suas pesquisas as relações entre cultura e política no período da Ditadura Militar. Trabalhou com o Grupo Galpão no CPMT prestando assessoria em pesquisas sobre o teatro mineiro e nacional. Atualmente é pesquisadora do Portal de Primeiro Sinal e membro no Núcleo de História Oral da UFMG.


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