Planejamento cultural e experiências coletivas

Dando continuidade a série de textos sobre gestão cultural, a pesquisadora e gestora cultural
Maria Helena Cunha traz dicas sobre planejamento, destacando sua importância
e sua realização em um processo coletivo.

Em tempos atuais, refletir sobre planejamento estratégico voltado para cultura é como, quase, construir uma peça de ficção. Como já afirmei no artigo anterior – Pensar a gestão cultural nos dias de hoje, vivemos em um período de crise política, social, econômica e ética, o que nos provoca o deslocamento de um lugar já estabelecido e, muitas vezes, consolidado. Tal situação nos leva a mover nosso olhar para outro ângulo, a visualizar com consciência as transformações possíveis nos ambientes externos à nossa volta e nos ambientes internos de nossos grupos, espaços e instituições. Assistimos a uma aceleração dos processos relacionados ao nosso cotidiano, pessoal e profissional, e que, muitas vezes, pode nos colocar diante do caos.

Como lidar com essa situação no nosso dia a dia? 

O primeiro passo é nos prepararmos para o desenvolvimento de um trabalho pautado por profissionalismo e criatividade. No âmbito interno dos espaços e grupos culturais, temos que identificar o melhor caminho de seu processo organizacional, independentemente do seu porte e formato, pois cada instituição tem a sua realidade refletida pelo seu contexto histórico, que os posiciona perante seus pares e a sociedade.

Essa identificação social e as relações de convívio estabelecidas dentro das entidades culturais é que as fortalece como instituição com perfil próprio e as distingue em um contexto mais amplo. Atualmente, assistimos ao crescimento de diferentes processos de relacionamento profissional, em formatos que favorecem um movimento mais coletivo como forma de atuação no mercado de trabalho, no qual circulam vários grupos que se entrelaçam e compartilham recursos materiais, espaços, experiências… em que o desenvolvimento do processo significa estar juntos de fato e sem perder as identidades.

Para nos posicionarmos diante da atual realidade, o planejamento estratégico se apresenta como uma ferramenta de trabalho disponível e de fácil acesso. Não precisamos inventar nenhuma roda, é só colocá-la para funcionar sob nosso controle, nós a fazemos girar de acordo com a nossa necessidade e dentro da nossa realidade.

Mas o que é o planejamento?

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que não há um modelo de planejamento estratégico único. Deve-se respeitar a realidade de cada situação, o porte da instituição e o uso adequado de metodologias diferenciadas.

O planejamento é um instrumento de trabalho que, ao desnudar uma instituição cultural, a torna mais conhecida pelos próprios membros e, em seguida, pode reorganizá-la em bases mais consistentes pelo reconhecimento do próprio contexto interno e externo.

Assim, independentemente do modelo de planejamento a ser adotado, a sua estruturação deve passar por algumas etapas básicas: a elaboração de diagnóstico da realidade institucional, no que se refere ao seu ambiente interno e externo; a definição da missão e visão de futuro; a formulação de objetivos e resultados esperados; a sustentabilidade (como); os prazos de execução (quando); a definição de estratégias (quais); os programas e projetos e, por fim, a garantia da sua implementação.

Um ponto fundamental para garantir os resultados previstos é delinear instrumentos de monitoramento e avaliação de todo o processo de implantação, com a definição de indicadores e a consciência da necessidade de alterações de rumo, que podem ser provocadas por fatores internos e/ou externos. Precisamos estar dispostos e ter a liberdade para lidar com mudanças e aperfeiçoamentos constantes, mediante os resultados das avaliações, pois cada ação ou projeto desencadeia novas demandas que exigem respostas dos gestores e provocam uma contínua adaptação e reformulação do próprio planejamento.

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Esse pode ser considerado um modelo clássico, mas que traz um forte viés contemporâneo, levando-se em conta o conteúdo desenvolvido e, principalmente, o direcionamento dos trabalhos que respeitem os processos diferenciados de cada instituição e de seus participantes. Estes devem estar dispostos a passar por um exercício de fôlego, que é necessário e fundamental para uma melhor sobrevivência nesses tempos de caos.

O planejamento é um processo de reflexão em que os participantes se colocam como indivíduos e como grupo diante de todos. É um processo de abertura para falar, sem receio, dos seus desejos, de suas ideias e de suas questões. A riqueza do processo de planejamento está na sua capacidade de ser participativo, de levantar os desejos individuais que só fazem sentido quando são comuns a todos, garantindo a cooperação e a incorporação do coletivo.

Outro mito do planejamento a ser desmistificado é o receio de que este processo de trabalho possa engessar instituições que dependem da criatividade artística e cultural como desenvolvimento de sua atividade principal.

Em momento algum o planejamento poderá inibir ou desconsiderar o processo criativo; ele vem para otimizar recursos financeiros, técnicos e humanos, o que significa organizar institucionalmente para criar melhores condições e possibilitar mais liberdade de atuação nas suas áreas fins — o fazer cultural, o fazer artístico.

Planejar significa uma mudança de atitude e vivenciar uma experiência de planejamento é um amadurecimento para instituições e grupos culturais. Mas precisamos considerar que esse processo é sentido de formas diferentes por cada indivíduo, mesmo se tratando de ambientes que já trazem uma experiência coletiva. Assim, trabalhar com base em um planejamento estruturado, com flexibilidade, e adequado para sua finalidade é o grande diferencial para o setor cultural. Criamos as possibilidades de driblar a lógica de desenvolvimento de trabalhos pautados em projetos anuais e/ou pontuais, resquícios do perfil de projetos viabilizados via incentivos fiscais e da situação sazonal própria do mercado cultural, independentemente de estarmos, ou não, em momentos de crise geral.

Essa realidade nos traz, aos poucos, a consciência da importância de modelos diferenciados de organização e de financiamentos diversificados, pautados por iniciativas que tenham a lógica da continuidade das ações e da construção de parcerias internas e externas mais claras e consistentes.

No momento atual, o que significa a experiência de desenvolvermos um planejamento em processo coletivo?

Significa total desprendimento e confiança nos demais participantes, é a exposição diante do outro, é o compartilhamento de ideias positivas e negativas, mas que constroem o histórico nada linear de entidades culturais.  Na coletividade o que importa é a troca de experiências entre grupos mais estruturados que já tenham passado por algum tipo de planejamento e que compartilhem as suas informações com os demais e grupos que lidam com certa informalidade nesse aspecto. Assim, criam possibilidades de repensar suas organizações internas, não como um processo de uniformização das realidades, o que seria impossível, mas como uma tradução para suas lógicas próprias e que façam sentido dentro do contexto de cada um. Permanece o espírito de aprendizado colaborativo com a experiência do outro em um processo formativo. O objetivo desse trabalho coletivo é dar autonomia aos grupos, para que possam desenvolver e colocar em prática seu planejamento, levando em conta suas especificidades.

O desenvolvimento do planejamento em um formato de construção coletiva significa ter habilidades para lidar com os problemas de forma tranquila, sem medo da exposição de suas fragilidades diante dos pares, identificando semelhanças, ou não, na experiência do outro em busca de soluções comuns. Nesse sentido, é fundamental ter consciência de que as demandas e desejos individuais ficam sempre sujeitos às necessidades e decisões do coletivo. E que os processos são, inevitavelmente, mais lentos do que o normal, exigindo paciência e generosidade.

O nosso grande desafio é lidar com a área de gestão e o planejamento como uma de suas ferramentas de trabalho que traz uma tonalidade objetiva para o campo da cultura, que lida no dia a dia com a subjetividade, com o intangível, com a criatividade.

Para transpor esse desafio, a nossa principal ferramenta é uma formação específica de profissionais sensíveis a essa dinâmica da área cultural e que extrapole os modelos formais e tradicionais de “caixinhas”, deixar fluir a construção de um conhecimento compartilhado a nossa volta.

Esses encontros de compartilhamentos podem também suscitar um debate político mais amplo sobre o contexto geral do mercado de trabalho, demonstrando um forte senso de coletivo e muita generosidade ao expor a situação em reuniões abertas e transversais e, consequentemente, a possibilidade de um maior posicionamento diante de políticas de cultura.

Por fim, para começar um trabalho de pesquisa e estudo na área de gestão e planejamento, faço algumas indicações que, longe de ser um levantamento bibliográfico, são dicas para desencadearem outras leituras para aqueles que queiram se aprofundar no tema e têm afinidades com as ideia que acabei de compartilhar com vocês. São elas:

>Esta coleção é publicada desde 2001 e vale acompanhar as mudanças até os dias de hoje, o mais atual: NATALE, Edson; OLIVIERI, Cristiane (Org.). Guia brasileiro de produção cultural – Ações que transformam a cidade. São Paulo: Edições SESCSP, 2016.

>Este é um clássico, já está na quarta edição: AVELAR, Romulo. O Avesso da Cena: notas sobre produção e gestão cultural. Belo Horizonte: DUO Editorial, 2008 (1ª edição).

>Este livro é excelente para o entendimento de gestão e planejamento de instituições de diferentes perfis: TOLEDO, Daniel (Org). Indie. Gestão – práticas para Artistas/Gestores ou Como Assoviar e Chupar Cana ao Mesmo Tempo. Belo Horizonte. JA.CA, 2014.

>Esta publicação traz o relato detalhado de experiência de organização, gestão e planejamento do Grupo Galpão e do seu espaço cultural voltado para o teatro, o Galpão Cine Horto: AVELAR, Romulo; PELUCIO, Chico. Do Grupo Galpão ao Galpão Cine Horto: uma experiência de gestão cultural. Belo Horizonte: Edições CPMT, 2014.


Lena Cunha
Lena Cunha

Diretora da Inspire Gestão Cultural, mestre em Educação (FAE/UFMG), especialista em Planejamento e Gestão Cultural (PUC/MG). Escreveu o livro Gestão Cultural: Profissão em Formação (2007). Coordenadora pedagógica do Programa de formação Competências Criativas (2014/2015), e coordenação de Planejamento do Programa de Soluções Estratégicas para as Artes Cênicas desenvolvido pelo Grupo Teatro Andante para o SEBRAE-MG.


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