Abayomy Afrobeat Orquestra em BH!

A convite da Variável 5, Rodrigo Magalhães, baixista das bandas A Fase Rosa e Sem Receita Instrumental, entrevistou Alexandre Garnizé, da Abayomy Afrobeat Orquestra. A banda se apresenta no próximo sábado, dia 5, na Casa de Show Granfinos, recebendo como convidado especial André Abujamra, também diretor do show. Mais informações no evento.

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Quando me convidaram para fazer essa entrevista eu pensei, prontamente, em me esforçar ao máximo para fazer perguntas originais. Fugir das obviedades. No entanto, já começo com o tema mais clichê possível: a origem da banda. A banda surgiu para comemorar o Fela Day em 2009 e daí resolveram continuar o projeto. A minha curiosidade reside no desafio que deve ser criar um grande grupo como é o Abayomy.

Como foi o processo de montar uma banda com 13 integrantes? Como se chegou a essa formação e como se deu a escolha dos músicos?

A Abayomy surgiu da vontade e organização por parte de alguns integrantes da banda, para se juntar e tocar afrobeat, aproveitando a ocasião do evento que acontece em diversas capitais do mundo chamado Fela Day, em homenagem a Fela Kuti. A escolha da formação foi baseada na sonoridade afrobeat que precisávamos, com uma grande sessão de metais (5), duas guitarras, teclado, baixo, 3 percussões e batera, e, como o objetivo era juntar amigos pra tocar…eles naturalmente vieram e contribuíram com o que sabiam sobre afrobeat, levadas, hits do Fela, e começamos a arriscar os primeiros arranjos. Me lembro que no show de estreia tinha tanto amigo que subimos ao palco com 16 ou 17 músicos!

Foto: J.D.Oliver

Foto: J.D.Oliver

Ao ler o encarte, percebi que os arranjos quase sempre são assinados por um integrante e a banda (Por exemplo, em “Eru” o arranjo é de Pedro Araújo e Abayomy Afrobeat Orquestra). Em geral, a elaboração dos arranjos parte da proposta de um integrante e é desenvolvido pela banda?

Sempre temos a liberdade de trazer coisas novas pro ensaios, pra serem desenvolvidas em grupo.
Às vezes aparece coisa quase pronta, músicas com estrutura definida, letras e grooves estabelecidos, às vezes apenas um “rif” no qual todos se empolgam e pinta uma nova música. Todas as formas de composição e arranjo são experimentadas nesse nosso processo

A relação do Abayomy com a cultura afro-brasileira é muito forte. O nome é na língua Yorubá, bem como as letras de algumas canções, tem referências claras ao candomblé, etc. Recentemente assisti a um show da banda no Inhotim e eu percebi que você tem uma grande intimidade com essa raiz cultural. Gostaria que você falasse um pouco sobre sua história com a cultura afro-brasileira.

Um ponto comum entre todos nós é que amamos a África e tudo que ela trouxe pra nossa brasilidade, costumes, música e crenças. Sabemos o quanto da África está no nosso sangue. A África está aqui, faz parte do Brasil, mixa nossa cor, dita costumes, pensamentos, ações e reações. Quando inserimos pontos de candomblé e toda sua riqueza de cânticos, crenças e a conexão com a natureza e suas forcas, apenas continuamos a construir e ampliar a ponte entre essas manifestações, como sugere a cultura afrobeat e Fela kuti.

A produção do disco foi realizada pelo André Abujamra. Pessoalmente gosto muito do trabalho dele no Mulheres Negras e no Karnak, mas, à primeira vista, diria que seu trabalho dialoga muito pouco com o Abayomy. No entanto, o resultado da parceria foi extremamente positivo. O que motivou a banda a trabalhar com o Abujamra? E em quais aspectos ele mais contribuiu para o disco?

O Abu e seu trabalho dialogam muito bem com a cultura afrobeat e com a sonoridade abayomy. Existem vários pontos de convergência, como a busca por conceitos que envolvam diferentes formas de música, de diferentes países e idiomas, interação entre música, teatro, dança e vídeo… Tecnologia dos equipamentos de áudio e iluminação aliada às raízes da música pelo mundo afora. Sempre apreciamos Mulheres Negras e depois karnak e tudo de novo que ele sempre propõe. E a decisão final de convidá-lo para produzir o disco foi DELE MESMO, no palco conosco, durante um show nosso para o qual o convidamos: “..nossa…que porrada heim meu!!!vcs tao gravando??? quem vai produzir???? EU VOU PRODUZIR!!! JÁ OUVIRAM A PRIMEIRA FAIXA DO MEU DISCO NOVO?? É UM Puta AFROBEAT MEU!!!!! OUVE LÁ…OUVE LÁ!!!

Afrobeat tem como característica marcante o caráter de protesto e a crítica social. É fácil perceber que o Abayomy não deixa de lado essa característica, tanto pelo conteúdo de algumas canções quanto pelos posicionamentos adotados em suas mídias virtuais. Para a banda, qual é o papel da classe artística nas questões político/social?

Não creio que a adoção de um papel político social esteja creditado ao fato de tocarmos afrobeat, mas sim ao fato de nos conscientizarmos que precisamos nos organizar enquanto cidadãos, enquanto sociedade. Ser Abayomy, estar no palco com a Abayomy apenas suporta e facilita nossa manifestação. Como formadores de opinião e detentores desse maravilhoso meio de comunicação que é a musica e seu aparato de difusão, hoje muito ampliado através da internet, e impelidos pelo constante desejo de transformação e renovação que a arte propõe, expressamos o cotidiano e as questões que acometem nosso mundo hoje. Assim pontearemos mudanças no futuro do qual também faremos parte.

A banda já fez diversas parcerias com vários artistas de gêneros musicais distintos. Por ser uma orquestra de afrobeat, imagino que tocar com Tony Allen e Oghene Kologbo, integrantes da banda do Fela Kuti, tenha sido uma coisa muito especial para vocês. Como se deu a aproximação da banda com essas figuras?

Fomos convidados pra abrir o show do Tonny aqui no circo voador, e a interação entre as duas bandas foi maneiríssima! Tivemos até um momento todos juntos no palco….20 e tantos músicos!

Dia seguinte fizemos um churrasco e os convidamos…. Pra nossa surpresa todos apareceram e fizemos uma jam session com as duas bandas e o Bnegao, que gerou a gravação de um single lançado em vinil na franca! Depois disso o Kologbo ficou no Brasil, montamos uma banda pra acompanhá-lo…. Altas composições….aulas de afrobeat todo dia! E a conexão continuou, em sua última vinda ao Brasil em turnê pelo sudeste e nordeste Tonny Allen convidou dois integrantes da Abayomy pra fazerem parte da sessão de metais da sua banda… e tome aula de afrobeat!!!


Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães

Graduando em Música na UFMG. Baixista dos grupos A Fase Rosa e Sem Receita Instrumental. Integrou por dois anos a Geraes Big Band e já acompanhou diversos artistas de renome nacional. Amante de variadas brasilidades, realiza uma pesquisa constante dos diversos ritmos tradicionais do norte e nordeste do país e se apresenta na noite belo-horizontina sob a alcunha de DJ CarimBoi.


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