Djalmas, Quércias e Tarcísios – Pra levar esses engraçadinhos a sério

A cena musical independente de BH é muito influenciada por questões políticas e sociais. Independente do estilo ou gênero, encontramos na música made in belô letras contextualizadas e há bandas que lidam com esses temas de forma descontraída. Então, convidamos o Carlos Bolívia, membro da banda Djalma não entende de política, para falar sobre música e comentar os sons das bandas Jota Quércia, Glorios e Tarcísios e, claro, do Djalma.

Djalmas, Quércias e Tarcísios  
Pra levar esses engraçadinhos a sério

Fui chamado para escrever sobre “bandas de BH com uma proposta irreverente”. Mais do que isso, já me falaram de cara que encontravam uma aproximação entre as propostas de três grupos: Glórios Tarcísios, Jota Quércia e Djalma não entende de política.

Sou membro do Djalma e nunca fui a um show das outras bandas citadas. Já tinha ouvido algo do Jota Quércia “de quebrada”, mas não me lembrava de conhecer algo ou alguém dos Glórios, apesar de curtir de cara o nome. Fiquei até em dúvida em aceitar ou não o convite.

Mas aceitei. Pois ouvindo o som deles tive estranho sentimento de identificação.

De início, seria difícil falar que compomos uma cena. Afinal, além de nunca termos sequer trocado uma ideia, temos estilos musicais bastante diferentes.

Minha audição me mostrou um Jota Quércia ligado indiscutivelmente a uma estética punk com vocais e guitarras mais agressivas, enquanto os Glórios teriam um som pós-punk com traços cinquentistas e referências brego-carnavalescas. Djalma, por sua vez, teria os pés mais fincados na tradição brasileira, com charme caribenho e guitarras que dão uma esquentada (ai, como é difícil definir a própria música!).

Apesar das diferenças, vejo um gesto similar dessas bandas frente a seus estilos de origem. Começando pelas bandas mais roqueiras, é sempre bom lembrar que o rock tem o deboche em seu DNA: o rebolado do Elvis, o escracho dos Mutantes,“My Way” tocado pelos Sex Pistols e por aí vai…

Acontece, no entanto, que, isso tem cada vez mais raro nos últimos tempos… Dá até nos nervos o tanto de banda com tom professoral querendo “levar o conhecimento para esse povo ignorante governado por políticos corruptos”.

Não, não é nada disso! “Tudo que eu te peço meu bem é amor e ketchup Heinz”, este verso dos Glórios é muito mais rock’n roll! É só ver os vídeos que essa banda posta na internet, para entender o que eu estou falando.

E o Jota Quércia também foge dessa tendência pedagógica, fazendo crítica política e midiática sem precisar dar palestra pra ninguém. A capa do disco tem assunto pra um semestre na faculdade de comunicação, sem precisar de prova, de lista de presença e nem de estar sóbrio.No álbum, sobra até pro Eymael, o “democrata cuzão”.

E o Djalma? De novo: é difícil falar, pois olhando de dentro da banda, vejo a diversidade das referências dos integrantes. Mas acredito que a canção “Complexo de Épico” de Tom Zé, no disco “Todos os Olhos”, pode dar uma dica da nossa forma de olhar para as raízes musicais brasileiras.

Vamos lá. Me arrisco a dizer que o nefasto rótulo da MPB, que camuflou toda a riqueza da música brasileira (com seus sambas, marchas, modas, afoxés e cururus), também contribuiu para um imaginário de que essa música supostamente “intelectualizada” tinha de ser sisuda e difícil. É o que Tom Zé já dizia em 1973:

“Todo compositor brasileiro é um complexado…
Por que essa mania danada
Esta preocupação de falar tão sério
De parecer tão sério, de ser tão sério,
De sorrir tão sério, de chorar tão sério e de brincar tão sério
De amar tão sério
A meu deus do céu vai ser sério assim no inferno…”

Bingo! Não tem de ser assim tão sério! A música brasileira é irreverente. Isso sempre esteve nas marchas, nas cantigas de roda. Isso deualegriaao tropicalismo, em plena ditadura, e brilho ao rock nacional dos anos 1980, apesar das entrevistas com o Faustão.

Hoje isso também se faz visível na própria retomada do carnaval em BH. Junto com o fascinante fenômeno de musicalização massiva dostocadores de bloco, surgem marchinhas hilárias, fantasias impagáveis, sungas brilhantes e subversão. Lamartine Babo, Beyoncé, É o Tchan e Raul.

E o que estou dizendo aqui é muito sério.

☛ Pra começar a playlist:


carlos_jauregui

Carlos Bolívia é membro do Djalma não entende de Política, músico por profissão e professor por paixão.


Comentários