Café Variedades #1 – O financiamento coletivo como possibilidade para o audiovisual

Na semana passada realizamos a primeira edição do Café Variedades. O evento inaugurou, pela classe audiovisual, uma série de encontros que a Variável 5 promoverá com representantes de diferentes setores culturais.  O nosso objetivo é pensar junto aos realizadores possibilidades do financiamento coletivo para a cultura, respondermos questões e sermos respondidos, na medida do possível, ou, pelo menos, procurarmos juntos pelas respostas. Esta primeira edição aconteceu no Galpão Benfeitoria, em uma parceria que nos foi muito importante.

Um dos méritos do primeiro Café Variedades foi reunir diferentes gerações de realizadores do audiovisual, com atuações e experiências igualmente diversas. Foi extremamente importante contar, no bate-papo, com a participação da Amanda Gomes e da Mariana Mól. As duas são realizadoras do documentário “Simplicidade” e, com seu relato sobre a campanha bem sucedida de financiamento do filme, na Variável, elas estabeleceram uma ponte perfeita entre nossa equipe e os artistas que participaram do bate-papo.

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Foi a Variável que deu início à conversa. Mediando o encontro, tentei fazer uma breve apresentação do financiamento coletivo e da trajetória da Variável 5, e abri as falas para Mariana, Amanda e os demais presentes com uma questão: O cinema costuma trabalhar com custos relativamente altos de produção. Da mesma forma, porém, costuma mobilizar muitos profissionais em sua realização. Isso seria uma característica que favoreceria o acesso a uma rede mais larga do que chamamos de 1º Nível de apoiadores (familiares, parceiros e amigos próximos)?

Sabemos que campanhas de financiamento bem sucedidas precisam atingir três níveis, o primeiro, como já dito, é formado pela família e os amigos muito próximos. O segundo, pelos amigos e conhecidos em geral, e o terceiro, os desconhecidos. É o que se conhece também por regra dos 3 Fs (em inglês, 1- Family; 2-Friends; 3-Fans).  Entendemos que a rede de desconhecidos é muito maior que a rede de conhecidos, que, por sua vez, é muito maior que a rede de amigos próximos. A medida que a proximidade com os realizadores aumenta, o círculo vai se fechando. Mas, da mesma forma, já é claro que o engajamento da rede mais próxima é muito maior.

Assim como o cinema mobiliza uma grande rede de profissionais em sua produção, mobilizar esta equipe é muito importante na divulgação de uma campanha de financiamento coletivo.

O caso do documentário “Simplicidade”, neste sentido, é bastante singular, porque o primeiro nível de apoiadores do projeto não incluía apenas os contatos das diretoras e produtoras do filme, mas também o círculo de Mozart Secundino, músico que foi tema do trabalho e que é uma figura extremamente carismática dentro da música mineira. Nem sempre projetos de vídeo contarão com um apelo como este. Mas há um caminho – e um desafio – que ficou bastante apontado após o bate-papo: assim como um grande número de pessoas se mobiliza para produzir um filme, a mobilização desta equipe, e o sentimento de pertencimento ao projeto, é muito importante para que todos os envolvidos no trabalho divulguem uma eventual campanha de financiamento para sua rede mais próxima, disponibilizando tempo e dedicação a contatos pessoais (os que mais e melhor se revertem em apoios).

Recompensas que proporcionam experiências são economicamente interessantes para o realizador do projeto e uma oportunidade para que o apoiador vivencie algo único.

Um outro ponto, este levantado pelos convidados presentes, foi a respeito das recompensas de um projeto de audiovisual. Como muitas vezes o resultado do projeto é imaterial (o filme pode até receber suportes físicos mas, em si, não é um produto material), como recompensar os apoiadores?

Mariana Mól lembrou de um exemplo interessante: para a campanha do “Simplicidade” planejamos produzir cartazes, camisetas, frames em impressão de alta qualidade mas, uma das recompensas mais interessantes e procuradas pelos apoiadores, foi a participação em uma roda de choro com o músico Mozart Secundino. Este caso representa muito bem uma convicção da nossa equipe – recompensas que proporcionem experiências aos apoiadores estão entre as mais legais que podem ser incluídas em uma campanha. E elas podem ser mais ou menos complexas, mais ou menos originais, indo desde um simples convite para uma sessão de pré-estréia do filme até uma participação do apoiador como ator figurante no próprio projeto. São recompensas muito positivas para todas as partes: os realizadores terão baixos custos para produzi-las e poderão travar um contato próximo com seu público, já aqueles que acreditaram e contribuíram com o projeto vivenciarão algo único, especial e exclusivo.

Em determinado momento nosso Café Variedades, que realmente conseguiu envolver os convidados se tornando um debate coletivo, envergou por uma direção que parecia inevitável: a de críticas ao setor público como incentivador de produções audiovisuais. A nós, parece de extrema importância que os produtores se unam para cobrar das instâncias do poder posturas mais corretas na distribuição dos recursos, que parecem sempre insuficientes ou indevidamente distribuídos. Adoraríamos que este encontro de artistas tão diversos fosse mais um passo rumo a esta união da classe. Mas, sobretudo, acreditamos e desejamos que os presentes tenham saído do encontro considerando também o crowdfunding como uma maneira digna, rica em possibilidades e direções para se produzir de maneira independente. E estaremos, a partir de agora, mais conscientes e estimulados ao planejar com os realizadores campanhas para o audiovisual.


João Santos
João Santos

Foi sócio-fundador da Variável 5, é jornalista. Profissional com experiência em assessoria de comunicação em diversos coletivos teatrais de BH, como o Grupo Galpão e a Primeira Campainha. É autor da peça "Doida", em que Teuda Bara atua, e escritor do livro "Teuda Bara: comunista demais para ser chacrete.


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