Apanhador Só em Belo Horizonte: sinceras impressões de um novo fã

Alexandre, André, Felipe e Fernão (que juntos formam o Apanhador Só), estiveram em BH apresentando aos fãs seu mais recente trabalho, o elogiado “Antes Que Tu Conte Outra”, contando também com os acordes de Lorenzo Flach. Mais uma vez na cidade, foram aplaudidos pelos mesmos fãs que participaram da 5ª campanha de financiamento coletivo da Variável 5 para trazer os caras à cidade. No palco puderam ver um misto de criatividade, crítica, coragem e muita familiaridade com o som original do disco. Pra registrar o momento em palavras convidamos João Carvalho, poeta, escritor, músico e, agora, estudante belo-horizontino a escrever sobre o que viu e ouviu. Deu para ver que “Antes Que Tu Conte Outra” veio para quem tá com a pulga atrás da orelha, pra quem quer ironizar, pensar e mudar.

Apanhador Só em Belo Horizonte: sinceras impressões de um novo fã

Vamos de música!

Acho que um bom ponto inicial é colocar que eu não era fã de Apanhador Só. Espero que não pareça ofensivo ou agressivo, mas só não me parecia o meu tipo de som. A verdade é que eu acompanho os rapazes desde a época em que eles estouraram em Belo Horizonte, nos tempos do primeiro show deles aqui e do Acústico Sucateiro. Foi com o sucateiro, e com o nível exorbitante de criatividade que eu vi nos instrumentos, que Alexandre e companhia me chamaram a atenção. Acabei por criar um carinho especial pelo som dos meninos. É inevitável afirmar que o grupo do Rio Grande do Sul vem ganhando espaço na cena do país num ritmo acelerado, mas eu não sabia muito bem como explicar como é que me sentia sobre o som deles. Eu ouvia o Apanhador Só (2010) e imaginava: esses caras podem ser grandes. Quer dizer, maiores ainda. E acho que foi nos versos de Paraquedas que eu resolvi prestar um pouco mais de atenção.  Talvez a música tenha sido escrita em outro contexto, mas não pude deixar de pensar que a tal mania de não os definir acabaria por deixá-los mesmo imensos. A banda de hits como “Bem–me-leve”, “Um Rei e O Zé” e “Nescafé” se destacou por uma identidade forte – o som deles era diferente da maioria das coisas que eu encontrava na época – mas, principalmente, por uma bonita, e mais carinhosa que o normal, relação de proximidade com os fãs. Quem participou de algum show do Apanhador Só num parque provavelmente se sentiu no meio de uma roda de viola num domingo de tarde entre amigos. Talvez por ser uma banda que me parecia embasada nesses pontos é que Antes Que Tu Conte Outra (2013) surge como um marco ou divisor de águas na história do Apanhador Só.

Foto: Paulo Radicchi

Foto: Paulo Radicchi

Entendam: é um disco corajoso. Corajoso por se enveredar por um caminho sinuoso em diversos aspectos. Logo nos primeiros segundos de “Mordido” percebemos que a dinâmica do disco não é tão facilmente digerível quanto a dos anteriores. A herança sempre presente dos barulhinhos e sucatas é subvertida de algo mais “fofo” enquanto assume os glitchseletrônicos e batidas e geringonças mais incômodas e complexas. Um dos pontos principais do disco parece ser mesmo o incômodo, a pulga insuportável e demente que mora atrás da cabeça das pessoas,a tensão irritante, o sorriso nervoso de “rir com câimbra até abrir ferida” e a catarse libertadora da “Despirocada”. As letras desse trabalho apresentam um lado da trupe que destila uma acidez deliciosamente humorada – como na divertidíssima critica a um certo refrigerante preto e docinho,e versos de um cunho político de dar orgulho. É um dos poucos álbuns de 2013 que eu vi dialogar abertamente com a situação política do país. O instrumental, por sua vez, segue uma linha mais complexa e rebuscada, que já se fazia visível no compacto de Paraquedas, apostando muito nas desarmonias e num peso (vide “Despirocar”) que nunca havia sido tão presente em trabalhos anteriores. As canções mais pop ainda estão lá, escondidas em cantos como “Torcicolo”, mas até o pop do Apanhador está diferente. Parece que aí está outro ponto principal: a mudança. É preciso muito jogo de cintura para arriscar reinventar a cara da banda, mas é um jogo válido. Tenho a impressão que ao apostar esse lado mais intimista e melancólico, ainda mais no primeiro disco deles realizado por meio do crowdfunding, é mesmo uma despirocada genial, e assim os guris se tornam mais completos e maiores. E a grandeza nem sempre é sinônimo de popularidade.

O show de lançamento do disco em Belo Horizonte me pareceu um teste interessante aos fãs do Apanhador Só. O show segue esse caminho mais sério e intimista do novo disco. Nem por isso as experimentações mais presentes se tornam chatas ou difíceis. Uma das coisas mais legais é ficar quebrando a cabeça para entender como funcionam as novas sucatas e muitos momentos seguem esse clima de observação. Ás vezes o público demora um pouco mais a responder aos números mais conceituais, mas tudo isso faz parte. Novas atenções são atraídas – imagino que canções como “Lá Em Casa Tá Pegando Fogo” vão fazer a alegria de qualquer chegado em Radiohead – e para aqueles que ainda sentem saudades do pop mais acessível e leve, o disco tem lá seus hits potenciais. E claro, a banda se demonstra sempre muito simpática aos seus trabalhos anteriores, que continuam sendo executados com maestria no show.

_DSF6050

Foto: Paulo Radicchi

Mudar é complicado e arriscado, e principalmente num mundo volátil como o da música. É difícil pra muitos grupos se aceitar, se reformular e, até mesmo, se entender em versos como “Vou seguindo a minha rota sem que eu possa controlar”. A Apanhador Só mostra com força que não é um desses grupos. E a liberdade de se politizar um pouco, mesmo que isso lhe custe algum público, gera bons frutos. Sei que não é lá muita coisa, mas posso dizer com certeza que eles ganharam um novo fã.


João Carvalho
João Carvalho

João Carvalho tem 19 anos e é um misto meio indefinido de poeta, músico, escritor e estudante. Ele também gosta muito de cinema, chuva, gente, abraço, café, e de tentar entender como as coisas funcionam. Frequentemente não tem sucesso nessa ultima empreitada, mas volta e meia consegue criar alguma coisa que faz as pessoas rirem ou chorarem, e é nessas horas que as coisas fazem sentido.


Comentários